terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Dr. Malinowski

E a noite é sempre envolvente aqui. Sempre. Quando ela chega é como se o tempo parasse. A noite parece não avançar. Estamos sempre à meia luz. Há sempre uma escuridão e um ponto de claridade. O perfume dela sempre me inebria. É como se me acolhesse e representasse a sua presença.

- Como vais embora?
- Não sei. Um táxi talvez. Aqui não passa ônibus.
- Onde moras? Um táxi dividido em duas sai mais barato.


Acho que não precisei dizer mais nada depois disso. O silencio no escuro. No fundo ainda ouvia as conversas paralelas e a música tocando. A porta abriu. Ouvi claramente a voz de alguns amigos. Estavam lá dentro, bebendo. Por reflexo, ela saiu do meu lado, fez menção de atender o celular. A pessoa da porta me olhou, trocou umas palavras e entrou novamente. Queria saber se eu havia visto o Beto. Eu disse que não. E tornei a olhar para ela novamente, afastada, acendendo um cigarro. Nervosa, eu acredito. Eu também estava. Depois de tantos olhares, brincadeiras e afastamentos. O comportamento ambíguo, ambíguo ainda era? Era necessário, talvez. O desejo não devia haver. Havia tantos problemas. E o táxi.

Fui primeiro. Abri a porta. E a chamei. Achei que não fosse entrar. Juro que ela deve ter pensado muito no que fazer. Pareceu uma eternidade. Algo atraía, puxava. De um lado o proibido e o errado; de outro o desejo, a redenção, a liberdade. E ela entrou e eu sentei ao seu lado. Sua mão tocou a minha enquanto ela indicava ao motorista por onde seguir. Não me importei. O táxi chegou de repente. Ela pagou. Descemos.

Eu não vi o caminho. Só via a escuridão da noite e o barulho de suas chaves abrindo o portão de um edifício. Se o visse novamente, não saberia descrevê-lo. Eu não percebi o tempo passar e não sabia o que fazer. Ela pelo jeito também não. As chaves caíram no chão. Ela estava nervosa. Tanto quanto eu. E ela não falava. Mas sorria.

O portão abriu logo o elevador subiu. Não sei onde estava nem que andar era. Eu não falava, ela não falava. Mas havia tanto no ar. Tanta tensão, tanto desejo. A porta se fechou atrás das minhas costas. A luz se acendeu e me dei por conta de onde estava. Seus olhos me fitavam. Profundamente. Não era momento pra racionalizar. Se isso ocorresse, eu voltaria atrás, desceria pelo elevador e caminharia na escuridão da madrugada em busca de ar fresco. Mas, no fundo, dificilmente eu faria isso. E penso que ela pensava a mesma coisa.

Me senti como se fosse a primeira vez. Eu não sabia bem o que fazer ou onde colocar minhas mãos. Mas a estranheza deixou de ser estranha em pouco tempo. Nossos corpos sabiam o que fazer e o que procurar. Definitivamente eu queria conhecer aquela pele suave e aqueles suaves suspiros mais do que uma vez.


3 comentários:

Marcia Paula disse...

Delicioso!

Isa Zeta disse...

Não saber onde colocar as mãos.. é complicado. Eu já passei por isso. E sei bem como é..

CANOA DE MENINAS disse...

OLÁAA !!!

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