segunda-feira, 30 de março de 2009

Quinze.

No inicio não nos notáramos. Eram apenas conversas vagas inspiradas pelo tempo que obrigava nossa proximidade. Mas aos poucos o mesmo tempo que obrigava passou a oferecer o prazer da convivência. E do prazer surgiu o desejo. O mesmo instinto ressonante que se apodera de nós sem que percebamos. Acordei e a vi ali, nua e dormindo e, naquele momento, fui possuída. Lavei o rosto. Não deveria, racionalmente, deixar aquilo tão selvagem e dissonante tomar conta de mim. Mas no inicio não nos notáramos. No início.

Tudo eram rosas. Seu sorriso e suas lágrimas. Seu corpo alvo e belo, límpido e claro. Era como possuir algo pela primeira vez.

E o instinto venceu. Numa madrugada estrelada as bocas se encontraram e a mágica aconteceu. Ela tomou minha mão enquanto subia a escada e no quarto trancou a porta. Não importava mesmo se estivesse cheio. Mãos e bocas com desejo; pernas se entrelaçavam de tesão. Contra a parede eu sentia seu perfume e o gosto doce de seus lábios. Suas mãos sentiam todo o meu corpo e logo as roupas eram adornos de chão. Corações disparados, gemidos entrecortados pelo barulho do exterior. Seus olhos me fitavam profundamente. Não sei o que procuravam. E ainda procuro descobrir. Era dia 15.


sábado, 28 de fevereiro de 2009

XXXIX

Foi assim que nos conhecemos.

Ela me atropelou. Nos primeiros instantes eu não percebi bem. Bati a cabeça no meio fio e, possivelmente, fiquei desacordada alguns segundos. Quando voltei a terra a primeira coisa que vi foram pernas. E um indescritível scarpin preto. Pisquei os olhos novamente e vi a magrela. Estava torta. Quase tive outro desmaio. Me levantei cambaleante e vi seu rosto pela primeira vez. Descarreguei todos os impropérios que vieram a minha mente. Só faltou chamá-la de puta. E seus olhos me fitaram enquanto isso.

Ela falava no celular. Queria uma ambulância. Ao redor curiosos se amontoavam. E me senti humilhada. A magrela do meu coração ali, torta. E ela ali, no alto dos seus 1,70m com o indescritível scarpin preto.

Me neguei a ir ao hospital em uma ambulância. Iria com dignidade. Ela se ofereceu pra me levar. E a magrela? Enfiei torta mesmo no carro dela e a fiz largá-la em casa. Mais tarde eu cuidaria de sua saúde.

No caminho ela se desculpou. Minhas pernas estavam esfoladas e eu sentia uma dor horrível no peito. Nunca havia quebrado uma costela. E pensava que só podia ser uma costela. Mas afinal, como se recuperava uma costela?!?

Eu só sentia o perfume dela dentro do carro. Observava todos os seus movimentos mesmo com a raiva corroendo meu coração. Ela gesticulava enquanto falava e se justificava.

Saldo: duas semanas de repouso e a magrela em reparos. Claro, fiz com que ela pagasse. E ao final das duas semanas eu já a chamava de puta, enquanto ela gemia na minha cama. Com o indescritível par de scarpins pretos.




sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Silêncio.

O telefone Toca.

- alô.
Silencio. Segundos depois uma voz indecisa.
- Oi.
Silencio novamente. Aquela voz. Seria verdade? A voz indecisa responde novamente.
- Oi.
- Oi.
Sim, era aquela voz. Imediatamente seu coração gritou. Berrou. No silencio do fone, duas almas se encontravam.
- Desculpa te ligar. Eu não deveria. Mas queria te falar umas coisas. Engasgadas, entende?

Sim. Ela deveria entender. Coisas engasgadas? Todo mundo tem coisas engasgadas em um ou outro momento da vida. Engasgos e tormentos.
Ela não respondeu. Silencio novamente. Deus, aquela voz novamente? Há quanto tempo não a ouvia? E porque seu coração bradava gritos de protesto? Ou eram gritos de satisfação que não poderiam ser controlados?
Ao fundo uma música começou a tocar de repente. Sua melodia suave interrompia o silencio. Ela se espichou e abaixou o volume. Ela queria o silencio.
- Eu preciso dizer. Não sei se você vai ouvir. Mas eu preciso.

Medo. Medo de ouvir? Medo daquela voz que já havia sussurrado em seu ouvido coisas boas em momentos outrora bons. O que viria a seguir? O som surdo do telefone sendo desligado era uma opção. Mas qual seria o sentido daquelas palavras ao vento, assim, de repente, que não o reencontro?
- Eu gosto de você. Tenho pensando em você nos últimos dias com bastante freqüência. Isso não acontecia há algum tempo já. Achei que tivesse perdido o que quer que tenha sido entre nós. Mas ai de alguma maneira voltou e eu queria que você soubesse.

Silencio. Ela não sabia o que responder. Suas mãos estavam geladas. No outro cômodo ela ouvia o som de panelas sendo remexidas na cozinha. Fechou a porta. O que ela mais queria era o silencio. E o doce som daquela voz em seus ouvidos novamente.
- Desculpa. Não deveria ter ligado.

I didn't mean to waste your time
So I'll fall back in line
But i'm warning you we're growing up

Ela não havia dito nada. Apenas ouvia. Mas achou que deveria dizer algo. Depois de um longo suspiro.
- Eu também. Sempre.

E o silencio já não era desconfortável. Nunca foi.


terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Dr. Malinowski

E a noite é sempre envolvente aqui. Sempre. Quando ela chega é como se o tempo parasse. A noite parece não avançar. Estamos sempre à meia luz. Há sempre uma escuridão e um ponto de claridade. O perfume dela sempre me inebria. É como se me acolhesse e representasse a sua presença.

- Como vais embora?
- Não sei. Um táxi talvez. Aqui não passa ônibus.
- Onde moras? Um táxi dividido em duas sai mais barato.


Acho que não precisei dizer mais nada depois disso. O silencio no escuro. No fundo ainda ouvia as conversas paralelas e a música tocando. A porta abriu. Ouvi claramente a voz de alguns amigos. Estavam lá dentro, bebendo. Por reflexo, ela saiu do meu lado, fez menção de atender o celular. A pessoa da porta me olhou, trocou umas palavras e entrou novamente. Queria saber se eu havia visto o Beto. Eu disse que não. E tornei a olhar para ela novamente, afastada, acendendo um cigarro. Nervosa, eu acredito. Eu também estava. Depois de tantos olhares, brincadeiras e afastamentos. O comportamento ambíguo, ambíguo ainda era? Era necessário, talvez. O desejo não devia haver. Havia tantos problemas. E o táxi.

Fui primeiro. Abri a porta. E a chamei. Achei que não fosse entrar. Juro que ela deve ter pensado muito no que fazer. Pareceu uma eternidade. Algo atraía, puxava. De um lado o proibido e o errado; de outro o desejo, a redenção, a liberdade. E ela entrou e eu sentei ao seu lado. Sua mão tocou a minha enquanto ela indicava ao motorista por onde seguir. Não me importei. O táxi chegou de repente. Ela pagou. Descemos.

Eu não vi o caminho. Só via a escuridão da noite e o barulho de suas chaves abrindo o portão de um edifício. Se o visse novamente, não saberia descrevê-lo. Eu não percebi o tempo passar e não sabia o que fazer. Ela pelo jeito também não. As chaves caíram no chão. Ela estava nervosa. Tanto quanto eu. E ela não falava. Mas sorria.

O portão abriu logo o elevador subiu. Não sei onde estava nem que andar era. Eu não falava, ela não falava. Mas havia tanto no ar. Tanta tensão, tanto desejo. A porta se fechou atrás das minhas costas. A luz se acendeu e me dei por conta de onde estava. Seus olhos me fitavam. Profundamente. Não era momento pra racionalizar. Se isso ocorresse, eu voltaria atrás, desceria pelo elevador e caminharia na escuridão da madrugada em busca de ar fresco. Mas, no fundo, dificilmente eu faria isso. E penso que ela pensava a mesma coisa.

Me senti como se fosse a primeira vez. Eu não sabia bem o que fazer ou onde colocar minhas mãos. Mas a estranheza deixou de ser estranha em pouco tempo. Nossos corpos sabiam o que fazer e o que procurar. Definitivamente eu queria conhecer aquela pele suave e aqueles suaves suspiros mais do que uma vez.


domingo, 11 de janeiro de 2009

Bárbara

1

Quando em dúvida, aplique álcool. Foi a primeira coisa que pensei com ela ali, sentada, aos prantos no sofá de minha casa. Estava ali para ser ouvida e dividir a sua dor. Caminhei até o armário, saquei uma garrafa de Jack Daniels e servi uma dose caprichada, com bastante gelo. Ela não havia pedido, mas eu estendia minha mão em sua direção. Impossível não aceitar, pensei. É praticamente um remédio ao coração quebrado e, agora solitário, que jazia sobre o meu sofá.

Sentei-me ao seu lado, orelhas atentas para ouvi-la. O primeiro gole lhe rendeu uma careta, mas alguns segundos depois ela parecia pronta pra despejar tudo o que sentia. E eu pronta para ouvir.

Obviamente que seus sentimentos não se voltavam para mim. Por mais que eu desejasse que fosse isso mesmo. Que ao invés de ela estar ali sentada chorando pelo seu amor perdido, que estivesse em desespero tentando me contar aquilo que lhe oprimia: seu desejo por mim. Mas isso jamais aconteceria. Assim eu pensava.

E ela falava. As lágrimas haviam se controlado. Eu a deixei falar. Observava o movimento de seus lábios, o sofrimento de seu coração e pensei comigo mesma que pequeno grande desperdício. Eu a faria tão feliz se pudesse...

- Você não acha?
Despertei de repente. Ela me encarava. Obviamente havia feito uma pergunta. E, elementar meu caro Watson, eu não havia ouvido. E ela havia percebido.
- Eu disse que não tem como voltar. Você não acha?
Deus pai. Aquela mulher maravilhosa ali, sentada no meu sofá com as pernas cruzadas, o nariz vermelho e o copo no meio, segurando com as duas mãos. Eu ali, do outro lado, no outro sofá, com outros pensamentos, desejando-a mais do que nunca. E ela me faz uma pergunta dessas.

- Olha, eu acho que é bem complicado. Mas se você gostar dela, tem que dar uma chance, né? Mudanças são sempre tão difíceis. – ótimo. Adoraria ter dito que se danem os nós, larga de mão essa criatura e vamô ser feliz.

E ela desandou a falar de novo. Enumerou todos os contras do seu relacionamento com argumentos bastante científicos para provar suas teses. E eu viajei de novo pela possibilidade de chamá-la pra jantar e terminar com aquele lindo corpo em meus braços. Resolvi tentar, porque não?

- Bárbara, quem sabe a gente sai pra comer algo? – acho que fui tão resoluta em meu tom de voz que ela me olhou surpreendida. Surpreendida, surpresa, nervosa de repente, não sei.

Me levantei, estendi minha mão em sua direção. Desta vez não carregava nenhum copo. Ela estendeu a dela que se encostou amavelmente na minha. A puxei dali e lhe dei um abraço forte. Em seu ouvido sussurrei fica tranqüila menina. Tudo vai dar certo. Deixa eu cuidar de você.

E com essa saímos pra jantar. E eu ainda segurava sua mão.

domingo, 28 de dezembro de 2008

C’est fini

Suas mãos suavam. Seu coração explodia. O que ela mais queria era encontrar ela e olhar em seus olhos. Seus lindos olhos. Os sinais são muito claros: é paixão. E enquanto ela pensava nisso viu quando ela desceu as escadas e veio em sua direção. E ela pensou meu deus como ela é linda. O mundo parou por alguns minutos. E ela se sentiu profundamente feliz e tranquila. O que ela mais queria era tomar sua mão entre as suas. Era conhecer seu corpo como ninguém. Era ouvir a sua voz que, de repente, transformou-se na melhor coisa que ela já ouviu. Mas essa moça apaixonada tenta dizer as coisas pelo olhar. Ela teme falar as palavras porque teme a reação dela. Teme a indiferença e tantas outras coisas. Medo todo mundo tem. Mas quando essa moça apaixonada se encontrou com a sua paixão todo o temor desapareceu por algumas horas. O medo da mudança, da solidão, da transformação, e o que mais mata ela, o medo do futuro. E das escolhas erradas.

Mas nem tudo são flores. Tudo muito confuso, tudo muito rápido, o doce e o amargo em uma brincadeira onde o vencedor já era esperado. O amargo da boca numa tarde quente de domingo era bastante significativo e teimava em não desaparecer. E mostrava o vencedor.


quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Eu Te Amo

Enquanto eu descia as escadas ela gritou furtivamente palavras que ecoaram longe em meus ouvidos: eu te amo.

Parei onde estava. Ouvi a porta se fechando. Obviamente era uma manobra; ela queria que eu voltasse para seus braços. Mas tinha coisas a fazer e precisava mesmo sair.

Seria uma manobra mesmo? Ali, parada nas escadas me perguntei qual o sentido daquela frase. Pensei ter ouvido a porta se abrir novamente, bem de leve, como se ela estivesse espiando por entre a fresta vendo se eu voltava ou não. Mas eu continuava ali, parada. Resolvi não voltar. Precisava mesmo era me fazer de difícil, afinal, já estava ali naquela situação há dois meses.

Havíamos nos conhecido em uma livraria. Esbarrei nela duas vezes e, na segunda, quase deixei um livro cair sobre sua cabeça. Estávamos na seção de culinária. Eu procurava avidamente por um livro de Sushi. Ela, bem, ela olhava com olhares críticos tudo o que via e eu não imaginava que conheceria seus dotes culinários tão bem como vim a conhecer.

Se não bastasse nos encontramos no caixa. E depois, novamente, na fila do cinema. Estava sozinha e disse-me que tinha reservado o dia apenas para si; me contou que absorvia a energia das pessoas ao seu redor e quando queria desopilar o fígado ou saía sozinha ou ia para o meio do mato. Não pude me conter e disse um patético ‘que bom que preferiu sair sozinha’. Claro que uma deixada como esta suscitaria dúvidas e ela logo perguntou o por que. Tentei rodear, mas não pude me conter. Porque gostei de você e se tivesse escolhido o mato não haveria de te encontrar. Ela, muito resoluta, deu seu ingresso para um casal na fila da compra e me convidou para tomar algo.

E assim nos conhecemos. Meio novelesco ou não, o fato é que nos víamos com freqüência e com desejo cada vez maior. Jamais me esquecerei da primeira vez em que a tive nos braços. Foi uma sensação tão especial que me preencheu por completa e não pude deixar de notar como ela era perfeita em quase tudo.

Dentro do carro pensei no Eu Te Amo. O que significaria isto? Um amor para toda a vida? Algo passageiro? Amor, o que haveria de ser? Relacionamentos longos não eram meu forte: nunca tive muito sucesso em manter relações, especialmente com mulheres. As desejava loucamente, mas não conseguia as manter próximas por longos períodos de tempo. Não sei, algo de pele talvez.

Mas ela parecia ser do tipo insistente.

Naquela noite resolvi preparar algo especial. Estudei avidamente o livro de Sushi que estava na prateleira já a algum tempo e sai para comprar os ingredientes: as folhas de alga, os recheios e um macarrão para um pequeno yakisoba. A chamei para curtir uma noite no oriente. Ela riu.

Minha experiência culinária foi desastrosa. Nada saiu direito com exceção do yakisoba – esse já era cliente da minha cozinha. Mas o melhor foi a sobremesa. Não, não vou cair na pieguice de dizer que sobremesa seria ela.

A sobremesa foi uma conversa séria e maravilhosa sobre o Eu Te Amo. Eu não tinha dúvidas que sentia algo muito forte por ela. Ela, sempre resoluta, repetiu o que eu havia ouvido na escada. Não uma, mas várias vezes.

Meu coração só faltou pular de tão feliz.